Nas cidades alemãs, todos os dias passa pela rede de esgotos um enorme tesouro de dados - e isso poderá, em breve, salvar vidas.
Aquilo que até agora estava sobretudo no radar de especialistas está a ganhar espaço na investigação oncológica: as nossas águas residuais. Um estudo dos EUA indica que nelas é possível detetar vestígios de tumores do intestino. A proposta é usar as ETAR como um “radar” para o cancro do intestino - não para diagnosticar pessoas em particular, mas para vigiar bairros inteiros.
As águas residuais como espelho da saúde urbana
Numa ETAR acaba por ir parar tudo o que casas e empresas querem descartar: fezes, urina, resíduos de medicamentos, drogas, microplásticos. Há anos que investigadores analisam estas misturas para, por exemplo, estimar a circulação de vírus como o da Covid-19 ou inferir o consumo de cocaína e anfetaminas.
Agora, uma equipa de investigação norte-americana dá mais um passo. O objetivo é captar, através das águas residuais, sinais de tumores no tubo digestivo - sobretudo do cancro do intestino. O racional é simples: células tumorais no intestino libertam material para o meio envolvente. Fragmentos de material genético e componentes celulares seguem nas fezes para a sanita e acabam arrastados para a rede de esgotos.
"A rede de esgotos de um bairro poderia tornar-se um sistema de alerta precoce - muito antes de todas as pessoas afetadas fazerem um teste."
Desta forma, as autoridades de saúde deixariam de depender apenas da procura espontânea de rastreio. Poderiam agir de forma mais proativa em zonas onde os sinais suspeitos se acumulassem nas amostras de esgoto.
Cancro do intestino - subestimado, letal, muitas vezes detetado tarde
O cancro do intestino está entre os tumores mais frequentes em muitas nações industrializadas. Nos Estados Unidos, são registados todos os anos mais de 150.000 novos casos no cólon e no reto. A doença ocupa aí o terceiro lugar entre os cancros mais comuns e o segundo lugar nas causas de morte por cancro.
Há um dado particularmente preocupante: está a aumentar o número de doentes com menos de 50 anos. Precisamente nesse grupo etário, muitos não recorrem ao rastreio clássico com colonoscopia ou teste às fezes - seja por não se verem como população de risco, seja por falta de acesso a ofertas de prevenção.
- O cancro do intestino tende a evoluir lentamente ao longo de anos.
- As fases iniciais costumam causar poucos sintomas ou nenhum.
- Se o tumor for removido a tempo, a probabilidade de sobrevivência aumenta de forma clara.
- Apesar de campanhas informativas, os programas de rastreio estão longe de chegar a toda a gente.
Por isso, epidemiologistas procuram sinais que funcionem independentemente do comportamento individual - uma espécie de luz de aviso coletiva. As águas residuais são especialmente úteis para isso, porque praticamente todos os agregados familiares estão ligados à rede de saneamento.
Ensaio-piloto no estado norte-americano do Kentucky
Para o estudo agora apresentado, os investigadores começaram por analisar os registos clínicos de um centro de cuidados de saúde no condado de Jefferson, no estado do Kentucky. O objetivo foi identificar “clusters”, isto é, pequenas áreas geográficas com um número invulgarmente elevado de casos de cancro do intestino.
Considerou-se como zona de elevada carga uma área onde, num raio de 800 metros, existiam pelo menos quatro pessoas doentes. A partir dos dados, destacaram-se três áreas de alta incidência. Para comparação, a equipa escolheu um bairro em que os registos não indicavam quaisquer doentes com cancro do intestino.
A 26 de julho de 2023, foram então recolhidas amostras em quatro redes de esgotos: três vezes por dia, 175 mililitros de águas residuais em cada recolha. Depois, no laboratório, a equipa procurou RNA humana na água - ou seja, fragmentos de material genético que sugerem a presença de células provenientes do intestino.
CDH1 e GAPDH - o que significam estes marcadores
Dois marcadores estiveram no centro da análise:
- CDH1: um gene associado a alterações relacionadas com cancro. Sinais de CDH1 alterados ou invulgarmente abundantes podem apontar para processos tumorais.
- GAPDH: um gene envolvido em funções metabólicas básicas em quase todas as células. É usado como um “sinal de referência”, por normalmente apresentar uma presença relativamente estável.
No laboratório, foi utilizada a chamada “PCR digital em gotículas”. A amostra é dividida em inúmeros microgotículas e cada uma é testada individualmente quanto à presença de determinadas sequências de RNA. A partir do número de gotículas positivas, é possível estimar com bastante precisão a frequência com que um marcador aparece.
O resultado principal foi o seguinte: em todas as doze amostras provenientes dos quatro bairros surgiram vestígios de RNA humana. O que mais importou foi o quociente entre CDH1 e GAPDH:
| Área | Característica | Rácio médio CDH1/GAPDH |
|---|---|---|
| Grupo 1 | elevada incidência de cancro do intestino | 20 |
| Grupo 2 | elevada incidência de cancro do intestino | 2,2 |
| Grupo 3 | elevada incidência de cancro do intestino | 4 |
| Área de comparação | sem casos conhecidos no registo | 2,6 |
O destaque vai, em particular, para o Grupo 1, com um rácio claramente mais alto (20). Foi também nessa zona que, por cada 100 habitantes, se verificou um número substancialmente maior de doentes acompanhados num centro especializado.
"Se o valor CDH1/GAPDH de um bairro subir de forma súbita e marcada, isso poderia levar as autoridades de saúde a desencadear ações de rastreio dirigidas."
Como os vestígios tumorais chegam à rede de esgotos
Tumores do intestino libertam células e fragmentos de material genético para o interior do intestino. Durante a evacuação, estas partículas são eliminadas. Nos testes clássicos às fezes usados no rastreio individual, os laboratórios procuram precisamente este tipo de sinais - por exemplo, vestígios de sangue ou alterações específicas de ADN.
O estudo aplica esta lógica à escala de toda uma rede de drenagem. Em vez de analisar a amostra de uma única pessoa, o equipamento recebe a “mistura” resultante de centenas ou milhares de casas.
A ideia-base é a seguinte:
- Numa zona com mais tumores, entram na rede de esgotos mais fragmentos de RNA suspeitos.
- A proporção de CDH1 associado a cancro, quando comparada com o GAPDH “normal”, aumenta.
- O quociente medido funciona como um sinal de que, naquele território, são necessários mais esforços e ofertas de rastreio.
Ainda assim, um rácio elevado não significa automaticamente que exista um caso em cada rua. O que fornece é, sobretudo, um indício de nível de risco aumentado num determinado perímetro de captação.
Do estudo-piloto a uma ferramenta para autoridades de saúde
Os autores do estudo sublinham que se trata de um passo muito inicial. Foram avaliadas apenas quatro redes de esgotos de um único condado - e apenas num dia. Isso não permite conclusões estatísticas robustas.
Mantêm-se muitas dúvidas em aberto:
- Até que ponto o quociente CDH1/GAPDH se mantém estável ao longo de semanas e meses?
- Quanto varia o valor com a hora do dia, a meteorologia e o consumo de água?
- Será possível inferir, a partir de um determinado quociente, uma ordem de grandeza do número de tumores?
- Qual é a proporção de casos ainda não diagnosticados numa área?
Estão previstas medições mais longas noutras cidades. Só se o sinal se revelar consistente é que fará sentido avançar para uma aplicação prática. Nessa altura, as autoridades de saúde poderiam, por exemplo, responder assim:
- envio mais direcionado de testes às fezes para agregados familiares em bairros afetados,
- ações móveis de rastreio com gastrenterologistas no local,
- campanhas informativas em consultórios, empresas e escolas dentro da área em causa,
- cooperação mais estreita com registos oncológicos para detetar padrões mais depressa.
Vantagens, limites e a questão da privacidade
Uma das grandes vantagens desta abordagem é que não exige ação ativa: ninguém tem de dar consentimento, ninguém tem de ultrapassar a barreira de fazer um teste. As águas residuais correm por si - e, ainda assim, permitem observar tendências na população. Isso pode ajudar a alcançar grupos que, de outra forma, raramente aderem ao rastreio.
Estas análises geram apenas uma imagem anónima de grupo. Não é possível identificar indivíduos, o que, à luz do que hoje se sabe, torna esta estratégia menos sensível do que métodos de vigilância individual. Além disso, os pontos de medição situam-se, em regra, em locais de recolha onde se misturam os efluentes de muitos domicílios.
Apesar disso, há desafios reais. Em bairros com hospitais, grandes lares ou laboratórios, o sinal pode ficar enviesado, porque aí entram mais resíduos médicos ou amostras de fezes na rede. Chuva intensa também pode diluir os valores. Estes fatores de confusão terão de ser incluídos e modelados em estudos futuros.
O que isto poderia significar para a Alemanha
Também na Alemanha existem, desde a pandemia de Covid-19, projetos de monitorização de carga viral em águas residuais. Ou seja, parte da infraestrutura e do conhecimento técnico já existe. Ampliar esses sistemas para marcadores de cancro é, em princípio, possível - mas exigiria decisões políticas, financiamento e métodos laboratoriais padronizados.
Tendo em conta o rastreio obrigatório do cancro do intestino a partir dos 50 anos, observar a rede de esgotos poderia ajudar a identificar regiões onde há maior necessidade de reforço. Seria plausível, por exemplo, que seguradoras de saúde legais enviassem convites adicionais para rastreio se, numa área de influência de uma ETAR, os valores subissem de forma sustentada ao longo do tempo.
Para quem não é da área, termos como “CDH1” ou “PCR digital em gotículas” podem parecer abstratos. Mas a mensagem essencial é simples: o cancro deixa marcas. Não apenas no corpo de uma pessoa, mas também nas águas residuais de uma cidade. Se esses sinais forem interpretados com inteligência, é possível agir mais cedo - e, no melhor dos cenários, evitar que um tumor se torne uma ameaça à vida.
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