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Como estar em forma aos 70: o que um médico do desporto recomenda

Homem e mulher em treino de agachamento com halteres num ginásio luminoso.

Um médico do desporto é taxativo: é possível - desde que, a partir de agora, se ajustem as alavancas certas.

Envelhecer é inevitável - mas a velocidade e a intensidade desse processo dependem, em grande medida, das escolhas que fazemos. Um dos principais especialistas em medicina preventiva explica porque é que a massa muscular é a melhor defesa contra fragilidades associadas à idade, como deve evoluir o treino ao longo das décadas e por que motivo até pessoas após um enfarte ou com 75+ conseguem melhorias muito relevantes.

Porque os músculos são a verdadeira fonte de juventude

Ano após ano, o corpo tende a perder massa muscular. No início quase não se nota; mais tarde torna-se evidente: subir escadas passa a custar mais, um pack de água parece bem mais pesado e o equilíbrio começa a falhar. É precisamente aqui que entra a abordagem do professor Martin Halle, médico preventivo e cardiologista do desporto.

"Quem quiser, na velhice, levantar-se com força, andar com segurança e viver de forma autónoma, precisa de músculos - não apenas de resistência."

Para Halle, o inimigo principal do envelhecimento não são as rugas nem os cabelos brancos, mas sim a perda progressiva de músculo. O treino de força funciona como um antídoto: desafia as fibras musculares, ativa processos de reparação e ensina o corpo a tolerar melhor a carga. Mesmo após doenças graves, como um enfarte, é possível alcançar ganhos surpreendentes de desempenho quando o treino é bem orientado.

Cinco fases da vida - e o que o corpo pede em cada uma

O professor defende que o treino deve ser pensado por etapas, porque aquilo de que precisa um jovem de 18 anos não é o mesmo que beneficia uma mulher de 68. A divisão é simples: cinco fases, cinco prioridades.

Fase 1: infância e adolescência - brincar, mexer-se, criar bases

Até cerca dos 20 anos, o corpo cresce quase “por defeito”. Nos músculos existem muitas células satélite muito ativas - uma espécie de equipa de reparação que ajuda a reconstruir e fortalecer as fibras musculares. Em termos de medicina do desporto, é um período especialmente favorável.

Ainda assim, Halle e colegas alertam para o risco de começar demasiado cedo com “ferro” pesado e treino muito duro. As placas de crescimento ósseo ainda não estão totalmente encerradas; pressão excessiva pode causar mais prejuízo do que benefício.

Mesmo assim, a regra mantém-se: crianças e adolescentes devem movimentar-se bastante, idealmente sem pressão competitiva. Fazem sentido sobretudo modalidades que desenvolvem várias capacidades ao mesmo tempo:

  • Jogos com bola como futebol, andebol ou basquetebol
  • Ginástica e escalada
  • Natação e atletismo
  • Dança, parkour, skate

Desta forma constroem-se mobilidade, coordenação, força de base e resistência - um conjunto que continua a dar retorno décadas mais tarde.

Fase 2: 20 a 35 anos - aproveitar bem a janela de potência

Nesta fase, o organismo está no auge: a musculatura responde rapidamente, a recuperação é eficiente e o sistema cardiovascular tolera bem o esforço. Quem leva a sério o treino de força e o treino aeróbio agora cria uma “reserva” para o futuro.

"O treino de força nos vinte e trinta anos é como dinheiro aplicado para a velhice - só que em massa muscular e densidade óssea."

A recomendação de Halle é transformar o treino muscular numa rotina fixa, tão automática como lavar os dentes. E não tem de ser no ginásio: agachamentos, passadas (lunges), flexões ou prancha (planks) podem ser feitos em casa, sem equipamento.

Uma regra prática ajuda a orientar:

  • 2–3 sessões de força por semana (corpo inteiro)
  • 2 sessões de resistência (por exemplo, corrida, bicicleta, natação)
  • “Pequenas escolhas” diárias: escadas em vez de elevador, trajetos a pé, bicicleta em vez de carro

Fase 3: 35 a 55 anos - travar a perda e manter a velocidade

A partir de meados dos 30 começa a perda natural de músculo. As mais afetadas são as fibras rápidas e potentes (tipo II). São elas que permitem saltar, sprintar, levantar-se depressa - exatamente o que precisamos no dia a dia e para reduzir o risco de quedas.

Aqui, Halle propõe uma mudança de mentalidade: em vez de depender apenas de corrida longa e confortável, vale a pena introduzir estímulos curtos e mais intensos. Boas opções incluem:

  • Exercícios de força com maior intensidade, mas duração curta
  • Treino intervalado na corrida ou na bicicleta (por exemplo, 30 segundos mais rápido, 60 segundos mais leve)
  • Movimentos do quotidiano feitos de forma deliberadamente “enérgica”, como subir escadas a bom ritmo

E quem tem antecedentes de saúde - por exemplo, hipertensão ou um enfarte - não deve usar isso como motivo para desistir. Pelo contrário: com supervisão médica e uma dose adequada, estas pessoas podem beneficiar de forma marcada. O coração aprende a lidar com o esforço, os vasos mantêm-se mais elásticos e a musculatura protege articulações e coluna.

Fase 4: 55 a 75 anos - preservar músculo e garantir autonomia

Entre os 55 e os 75 anos decide-se muitas vezes quão independente será a vida nas décadas seguintes. Embora a resposta da musculatura ao treino diminua um pouco, ela não desaparece. Cada sessão continua a desencadear um estímulo biológico relevante.

"A diferença no dia a dia nota-se: quem treina regularmente aos 60 e tal, em geral, levanta-se da cadeira sem ajuda - quem não treina, luta exatamente com isso."

Halle aconselha treino de força exigente, mas adaptado. Ou seja: pode ser cansativo, desde que esteja ajustado à capacidade individual. Exemplos práticos:

  • Exercícios com o peso do corpo (agachamento com apoio numa cadeira, flexões na parede)
  • Bandas elásticas e halteres leves
  • Treino de equilíbrio, como ficar em apoio num pé enquanto lava os dentes
  • duas a três sessões por semana, com pausas intermédias para recuperação

O impacto vai muito além de “pernas mais fortes”: o metabolismo torna-se mais estável, o controlo da glicemia melhora e a tensão arterial pode baixar. Fígado, coração e cérebro também beneficiam da presença de tecido muscular ativo.

Fase 5: 75+ - mexer-se, em vez de diminuir com cuidado

Há quem acredite que depois dos 75 já não vale a pena. A medicina do desporto não concorda. Estudos indicam que, mesmo em idades avançadas, trabalho muscular intenso pode facilitar claramente o quotidiano: internamentos mais curtos, menos quedas e mais tempo com independência.

A pedagoga do desporto Christine Joisten destaca frequentemente a dança: fortalece pernas e tronco, melhora equilíbrio e coordenação - e aproxima pessoas. Em particular, o convívio social funciona como fator protetor contra a solidão e estados depressivos.

Princípios essenciais nesta fase:

  • Regularidade antes de dureza - melhor mais vezes e pouco do que raro e muito
  • Variedade: caminhar, pedalar, dançar, treino de força leve
  • Segurança em primeiro lugar: bom calçado, ambiente estável e, se necessário, começar com acompanhamento

Como pode ser um programa semanal ideal

O que significa isto, de forma prática, para quem quer trabalhar no sentido de estar “em forma aos 70”? Um esquema simples pode ajudar a organizar a semana.

Idade Treino de força Resistência Foco principal
20–35 2–3 sessões/semana, corpo inteiro 2 sessões/semana, moderado a intenso Ganho de músculo, melhoria de desempenho
35–55 2–3 sessões/semana, um pouco mais intensas 2 sessões/semana, de preferência com intervalos Abrandar a perda, manter rapidez
55–75 2 sessões/semana, adaptadas, bem executadas 2–3 sessões/semana, mais moderadas Manter massa muscular, segurança no dia a dia
75+ 1–2 sessões curtas/semana, muito individual Movimento diário, muitos percursos curtos Evitar quedas, preservar autonomia

Estes números não são uma obrigação rígida; servem como orientação. Quem tiver limitações deve falar com o médico de família ou com a cardiologista antes de começar - sobretudo se existirem doenças cardiovasculares, diabetes ou problemas articulares.

Motivador digital: como os rastreadores de fitness podem ajudar

Para além de planos de treino, cada vez mais pessoas recorrem à tecnologia: relógios e pulseiras que contam passos, medem o pulso e registam minutos de atividade. Para quem recomeça depois dos 40, um rastreador pode funcionar como um “treinador silencioso”.

  • Garmin Vivoactive 6 - funções desportivas muito fortes, análise de saúde abrangente.
  • Huawei Watch Fit 4 Pro - bom acompanhamento desportivo por um preço relativamente baixo.
  • Fitbit Sense 2 - com função de ECG e muitos indicadores de saúde visíveis.

O modelo exato é o menos importante. O que interessa é o efeito: ver passos e minutos de treino registados aumenta comprovadamente o nível de atividade. Metas pequenas como “8.000 passos por dia” ou “3× por semana 20 minutos de exercícios de força” tornam-se, assim, mais concretas.

Erros típicos - e como evitá-los

Quem volta a treinar aos 40, 50 ou 60 costuma cometer deslizes semelhantes. Três exemplos frequentes:

  • Depressa demais, em excesso: após anos parado, tentar recomeçar a “todo o gás” leva muitas vezes a lesões ou desmotivação.
  • Só resistência, sem força: correr por si só não impede a perda de músculo; é preciso trabalho muscular específico.
  • Irregularidade: três semanas intensas e depois dois meses sem nada rendem muito menos do que pequenas sessões consistentes.

Uma boa forma de começar é avançar com calma e aumentar a carga a cada duas a três semanas. Pode ser útil fazer um curso num clube, integrar um grupo de reabilitação desportiva ou investir algumas horas com um treinador qualificado.

O que significam “treino intervalado” e “fibras tipo II”

Muitas recomendações da medicina do desporto usam termos técnicos que, à primeira vista, parecem complicados. Dois conceitos-chave são, no entanto, simples de compreender:

  • Treino intervalado: alternância entre fases curtas e intensas e fases calmas de recuperação. Exemplo: 1 minuto a andar depressa, 1 minuto a andar devagar, repetindo 10 vezes.
  • Fibras musculares tipo II: as fibras da “força rápida”. Permitem levantar-se num instante, apanhar um autocarro ou recuperar de um tropeção. Sem treino, perdem-se cedo; com estímulos certos, podem ser trabalhadas - por exemplo com exercícios de força ou sprints.

Compreender estes mecanismos, mesmo de forma geral, ajuda a ajustar melhor o treino. Não se trata de fazer palestras de ciência do desporto, mas de aplicar os estímulos certos.

Mais do que fitness: o que muda com treino regular

Quando se fala em “em forma aos 70”, a maioria pensa em músculos, coração e pulmões. Mas os efeitos vão bem mais longe: a qualidade do sono tende a melhorar, as hormonas do stress diminuem e o humor fica mais estável. Muitos referem maior capacidade de concentração e menos dores quando treinam de forma consistente.

Na prática, isto significa que introduzir treino de força e resistência no quotidiano - seja qual for a idade - é investir não apenas na capacidade de subir escadas no futuro, mas numa qualidade de vida mais alta em várias dimensões: física, mental e social. É aí que reside a possibilidade de, aos 70, ainda se sentir, em parte, como aos 30.

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