De verão em verão, aparecem “modas” novas: um autobronzeador diferente, um protetor solar anunciado como mais eficaz ou até um truque improvável para evitar escaldões. Muitas destas novidades acabam por alimentar ideias antigas, reforçam noções preconcebidas sobre proteção solar e, não raras vezes, deixam ainda mais perguntas no ar. No meio de tanta informação, surgem dúvidas recorrentes: é seguro usar protetor solar? Faz sentido ficar a bronzear o dia inteiro na praia? Se apanhar sol é desaconselhado, será que o solário é melhor? E, nos dias de maior calor, basta pôr creme e beber muita água?
Para lá das tendências, importa reter um ponto-chave: a “proteção solar não se resume” à aplicação do protetor solar, explica Maria Goreti Catorze, dermatologista, secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia e membro da direção da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo. Exige “muito mais”. A regra deve ser a moderação: aproveitar o sol de forma “responsável” e adotar as medidas necessárias para reduzir o risco de cancro de pele.
Os protetores solares são tóxicos?
Nas redes sociais, têm-se multiplicado conteúdos que colocam em causa a segurança dos protetores solares e que chegam a sugerir manteiga de chia ou óleo de coco como substitutos. O argumento, dizem, prende-se com a suposta “toxicidade” de alguns ingredientes, como a “benzofenoma” (também conhecida por oxibenzona), que integravam certas fórmulas. Sobre este ponto, Maria Goreti Catorze e a dermatologista Alexandra Osório são inequívocas: “Todos os protetores solares são controlados” na Europa e, em especial, no mercado português. Maria Goreti Catorze acrescenta que, “Embora esta substância estivesse presente em protetores solares mais antigos, atualmente os protetores solares das marcas comerciais, vendidos nas farmácias e nas parafarmácias, e recomendados pelos dermatologistas, não têm esta substância”. Ainda assim, “se os portugueses optarem por adquirir protetores solares noutros locais, como em centros de estética, o ideal é jogar pelo seguro e consultar os rótulos”, porque esses produtos podem não cumprir as mesmas normas, recordam.
O protetor solar, por si só, não chega, sobretudo quando a radiação ultravioleta está mais forte, alertam os dermatologistas.
Quanto ao óleo de coco e à manteiga de chia, podem “ajudar a hidratar a pele”, mas não funcionam como proteção contra a radiação ultravioleta. Alexandra Osório deixa um aviso claro: “Se uma pessoa usar estas coisas naturais e apanhar um escaldão, tem maior probabilidade de desenvolver cancro de pele”.
Usar protetor solar é suficiente?
Embora deva integrar a rotina diária de cuidados, o protetor solar não resolve tudo, principalmente nos dias em que a radiação ultravioleta é mais intensa. Como sublinha Maria Goreti Catorze, “A proteção solar não se resume à aplicação de um creme. Passa, sim, pela adoção de todas as medidas que impliquem a evicção do sol ou o usufruto responsável do sol”.
Quando o sol está mais agressivo, recomenda-se recorrer a “a utilização de mangas compridas, de chapéu, óculos de sol” e, além disso, reduzir a exposição nas horas de maior radiação - entre as 11h e as 16h. Nessa lógica, “O protetor solar - que deve ser aplicado de forma cuidadosa e responsável” - deve ser encarado como um “complemento” e não como a principal linha de defesa.
Os protetores solares físicos são melhores?
“Não são melhores nem piores. A resposta é: depende”. Existem protetores solares físicos e químicos: os físicos criam uma barreira mineral na superfície e “refletem a radiação”, enquanto os químicos “absorvem” e reduzem o impacto da radiação ultravioleta. Segundo Maria Goreti Catorze, para quem tem pele saudável e não apresenta problemas de saúde, qualquer um pode ser uma opção: ambos são seguros.
Para escolher, Alexandra Osório recomenda confirmar se o produto protege contra radiação ultravioleta A e B, avaliar o fator de proteção solar e verificar se o creme foi sujeito a “testes de proteção solar in vitro” (isto é, se foi testado em laboratório).
Há, porém, casos em que a escolha deve ser mais criteriosa. Se “as pessoas tiverem determinadas doenças”, como melasma, cancros de pele, lúpus, “se tomarem medicamentos para o coração” ou se forem particularmente reativas ao sol, “devem optar por cremes físicos, porque bloqueiam mais a radiação”. Também para “as crianças até aos dois anos” é indicada a utilização de protetores solares físicos.
Com tanta oferta disponível, a orientação mantém-se simples: “Se houver algum problema de saúde ou de pele, é importante esclarecer com o dermatologista qual o creme mais adequado”, reforça Maria Goreti Catorze.
Bronzear não faz mal?
Quando o verão se aproxima, instala-se rapidamente a meta de “Garantir um bom bronzeado.” No entanto, esse objetivo não é benéfico: o bronzeado “não é uma cor estética, é uma agressão”. Trata-se de “uma resposta de defesa da pele para se proteger perante a exposição solar”, frisa a porta-voz da SPDV. E, embora reconheça que o sol traz benefícios, insiste que a exposição deve ser moderada e segura - “mas não se pode fazer do bronzeado um objetivo”.
O solário é a melhor opção?
Uma exposição solar “responsável” diminui muito a probabilidade de bronzear, mas isso não significa que seja impossível obter um tom mais escuro. Em teoria, as alternativas mais comuns seriam o solário e o autobronzeador. Ainda assim, as dermatologistas rejeitam a primeira hipótese: “O solário é totalmente proibido.” A razão é apontada por Alexandra Osório: “nos solários as pessoas estão em contacto com radiações ultravioleta sem qualquer tipo de proteção e probabilidade de desenvolverem cancro é bastante grande”.
Quem tem problemas de saúde ou de pele deve escolher protetores solares específicos.
Já os autobronzeadores, por outro lado, “são mais seguros” e podem ser utilizados. Maria Goreti Catorze ressalva, contudo, um ponto essencial: “Mas é importante sinalizar que não funcionam como protetores solares”, pelo que, mesmo nestas situações, os cuidados com a pele não devem ser descurados.
Escaldões na adolescência não têm consequências?
Também aqui, a crença é errada. Na realidade, os escaldões deixam marcas no futuro: “os escaldões têm, na verdade, um impacto a longo prazo”. Alexandra Osório explica que a “radiação solar pode provocar alterações no ADN das células da pele”. E, apesar de o organismo conseguir corrigir parte dessas alterações, algumas lesões podem manter-se e, com os anos, favorecer o aparecimento de melanoma ou de outros cancros de pele.
Além disso, a adolescência é uma fase particularmente vulnerável, como descreve o artigo publicado na revista científica “Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention”. Nesta etapa, é mais provável que os jovens se exponham em excesso à radiação ultravioleta, influenciados por padrões estéticos, pelo grupo de amigos ou até por pressão no contexto familiar.
Por isso, a representante da SPDV deixa um aviso direto: “se [os jovens] querem realmente ter um ar menos envelhecido e uma pele sem manchas ou sem rugas, têm de se proteger do sol”, sobretudo porque “a exposição solar intensa durante a juventude, sobretudo até aos 25 anos, está associada a um maior risco de cancro de pele e de fotoenvelhecimento da pele”.
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