Saltar para o conteúdo

Gel de Deoxirribose acelera o crescimento do pelo em ratos e desafia o Minoxidil

Homem aplica loção no couro cabeludo sentado à secretária com espelho, laptop e desenho de folículo capilar.

A queda de cabelo é muitas vezes um motivo de frustração que se instala devagar e acompanha milhões de pessoas - por vezes durante toda a vida. Agora, um componente discreto do nosso ADN está a atrair atenções: num estudo com ratos, um gel com o açúcar deoxirribose fez o pelo crescer mais depressa do que alguns ingredientes já estabelecidos. Ainda não existe qualquer autorização para uso em humanos, mas a corrida por uma nova abordagem terapêutica ganhou impulso.

Como uma experiência de cicatrização levou à ideia para o cabelo

A descoberta não nasceu numa marca de cosmética, mas sim na investigação de base. Equipas da University of Sheffield, no Reino Unido, e da COMSATS University, no Paquistão, estavam inicialmente a avaliar se a deoxirribose ajudava a fechar feridas.

A deoxirribose é um açúcar que faz parte da estrutura do nosso ADN. O objetivo original era perceber se esta substância poderia apoiar a regeneração da pele. Para isso, os investigadores aplicaram em ratos de laboratório um gel com deoxirribose sobre pequenas lesões cutâneas.

No entanto, surgiu um sinal inesperado - e fora do plano experimental: à volta das áreas tratadas, o pelo voltou a crescer de forma visivelmente mais rápida do que nas zonas não tratadas. O que parecia um detalhe secundário transformou-se num novo foco de trabalho: perceber o impacto nos folículos pilosos.

"Um gel com um açúcar produzido pelo próprio organismo fez, no ensaio, o pelo dos ratos crescer mais depressa do que alguns produtos capilares conhecidos."

O ensaio com ratos com “calvície”

Para confirmar o fenómeno com maior rigor, os cientistas recorreram a um modelo bem conhecido de queda de cabelo hereditária: ratos machos em que a testosterona desencadeia perda de pelo. Este cenário é considerado semelhante ao padrão típico de alopecia masculina em humanos.

Primeiro, raparam o dorso dos animais para estabelecer um ponto de partida claro. Depois, num grupo, aplicaram diariamente um gel de deoxirribose. Outros ratos receberam um gel placebo ou o fármaco Minoxidil, frequentemente usado em soluções para estimular o crescimento capilar em pessoas.

O que os investigadores observaram

  • Crescimento rápido do pelo: ao fim de 20 dias, os ratos tratados com deoxirribose apresentavam pelo novamente mais longo e mais denso.
  • Efeito ao nível do Minoxidil: o gel com açúcar teve um desempenho semelhante ao do Minoxidil, há anos visto como referência no combate à queda de cabelo.
  • Combinação sem vantagem evidente: no ensaio, juntar gel de deoxirribose e Minoxidil não gerou resultados claramente superiores aos tratamentos isolados.

Nas imagens do estudo, a diferença entre animais tratados e não tratados é fácil de distinguir: enquanto o grupo de controlo exibe áreas sem pelo ou com cobertura muito fina no dorso, o grupo com deoxirribose aparenta uma pelagem consideravelmente mais preenchida.

O que pode estar a acontecer no organismo: mais sangue, mais células, mais cabelo?

Ainda não é possível afirmar com precisão por que razão este açúcar desencadeia um crescimento tão marcado. Mesmo assim, os investigadores identificaram duas alterações relevantes nas zonas cutâneas tratadas:

  • Formaram-se mais pequenos vasos sanguíneos.
  • As células da pele multiplicaram-se mais do que na pele não tratada.

Ambos os fatores podem ser decisivos. Os folículos pilosos são sensíveis ao ambiente que os rodeia. Quando recebem pouco oxigénio e poucos nutrientes, tendem a encolher e a produzir fios mais finos e curtos. Uma melhoria da circulação sanguínea pode reverter esse processo.

"Quanto melhor for a irrigação sanguínea da raiz do cabelo, mais fortes e mais espessos tendem a ser os fios que voltam a crescer", referem os investigadores.

Assim, a deoxirribose poderá atuar de forma indireta: não como um “ingrediente mágico” dentro do pelo, mas como um estímulo à formação de novos vasos e à divisão celular à volta do folículo. Com mais nutrientes disponíveis junto da raiz, o cabelo poderá regressar a uma fase ativa de crescimento.

Porque a alopecia androgenética é tão difícil de travar

A forma de queda de cabelo em causa chama-se alopecia androgenética - a perda capilar hereditária. Atinge homens e mulheres, mas manifesta-se de forma distinta: nos homens, são frequentes as entradas e a “clareira” no topo; nas mulheres, é mais comum o afinamento na risca do cabelo.

Vários elementos contribuem em conjunto:

  • A genética determina o grau de sensibilidade das raízes do cabelo às hormonas.
  • Androgénios como a testosterona e o seu metabolito DHT encurtam a fase de crescimento do cabelo.
  • Com o avançar da idade, a capacidade de regeneração dos folículos diminui.

Apesar de muitas pessoas receberem o diagnóstico cedo, poucas terapias atuam de forma profunda no mecanismo subjacente. É por isso que cada nova linha de investigação é tão relevante.

Como se compara o gel de açúcar com as opções atuais?

Atualmente, dois medicamentos são, de forma geral, os mais usados contra a queda de cabelo hereditária: Minoxidil e Finasterida.

Terapia Efeito Riscos e limitações
Minoxidil Pode estimular o crescimento do cabelo e abrandar a queda. Irritação do couro cabeludo, comichão, não funciona em todas as pessoas; ao interromper, o efeito diminui.
Finasterida Em muitos utilizadores do sexo masculino, reduz a queda de forma significativa. Possíveis efeitos secundários como disfunção erétil, diminuição da libido, alterações depressivas; não é autorizada para mulheres.

É aqui que a deoxirribose poderá vir a ter um papel. Se o gel se mostrar eficaz em humanos, em teoria poderia oferecer uma alternativa baseada num componente do próprio organismo, com ação sobretudo sobre o microambiente do folículo. Ainda não se sabe se funcionará na prática nem que efeitos indesejáveis poderá ter.

O que isto pode significar para quem fez quimioterapia e para a alopecia areata

Os investigadores não estão a olhar apenas para a alopecia androgenética. Consideram plausível testar esta abordagem também noutros tipos de perda de cabelo, por exemplo:

  • em pessoas cujo cabelo demora a regressar após quimioterapia,
  • em doentes com alopecia areata (queda de cabelo em placas).

Depois de quimioterapia, muitas pessoas sentem um impacto psicológico forte devido à alteração da imagem. Um gel bem tolerado que acelere o “reinício” dos folículos poderia aliviar esse sofrimento. Ao mesmo tempo, nesta fase as raízes do cabelo podem estar particularmente sensíveis, pelo que qualquer novo tratamento tem de ser avaliado com enorme rigor.

Até que ponto é realista usar isto em humanos?

Neste momento, o estado da investigação é muito inicial. Todos os dados disponíveis vêm de ensaios em ratos machos. Para se falar em aplicação no couro cabeludo humano, serão necessários vários passos:

  • Esclarecer o mecanismo com precisão: que vias de sinalização são afetadas pela deoxirribose? Que tipos de células respondem?
  • Avaliações de segurança: a pele tolera concentrações mais elevadas do açúcar durante longos períodos? Há risco de inflamação ou de proliferação celular descontrolada?
  • Ensaios em modelos de pele humana: primeiro em laboratório e, depois, em pequenos estudos clínicos.
  • Comparação com terapias existentes: no mundo real, o gel oferece vantagens claras face a Minoxidil e alternativas?

Só com resultados favoráveis em várias destas etapas fará sentido falar de autorização de uso. Os próprios autores enquadram o trabalho como um começo promissor, não como um “milagre” pronto a usar.

O que as pessoas afetadas já podem reter

Quem vive com queda de cabelo tende a receber notícias deste tipo com sentimentos mistos: esperança, mas também desconfiança. Ainda assim, há alguns pontos que já podem ser interpretados:

  • O estudo sugere que moléculas simples do próprio corpo podem ter efeitos novos e inesperados.
  • O foco em melhorar a circulação e a atividade celular junto da raiz do cabelo é consistente com achados de outras investigações capilares.
  • Um composto endógeno poderá, no futuro, causar menos efeitos sistémicos do que bloqueadores hormonais.

Apesar disso, permanece essencial: ninguém deve tentar por conta própria aplicar soluções experimentais de açúcar no couro cabeludo. Concentração, veículo, frequência e duração são determinantes para o efeito e para o risco. Ensaios improvisados podem causar mais danos do que benefícios.

O que significam termos como Minoxidil e alopecia androgenética

Muitos conceitos associados à queda de cabelo parecem técnicos, mas são relativamente diretos. O Minoxidil, por exemplo, foi desenvolvido inicialmente como medicamento para a tensão arterial. Só mais tarde se reparou que alguns doentes passavam a ter mais cabelo durante o tratamento. Hoje, esse efeito é aproveitado de forma intencional em espumas e loções aplicadas no couro cabeludo.

Já a expressão alopecia androgenética descreve, essencialmente, a combinação entre androgénios (hormonas sexuais) e predisposição genética. Quem herda esta sensibilidade tende a ter folículos mais vulneráveis e, com o passar dos anos, perde progressivamente mais cabelo. Nas mulheres, costuma intervir uma mistura de oscilações hormonais, genética e idade; nos homens, o DHT tem um peso particularmente forte sobre os folículos.

Um gel com deoxirribose entraria noutro ponto do processo: não mexeria diretamente nas hormonas, mas sim na capacidade de irrigação e regeneração do tecido à volta do folículo. Para muitos especialistas, é precisamente em estratégias combinadas - controlo hormonal e melhoria do microfluxo sanguíneo - que poderá estar o futuro das terapias capilares.

Por agora, o estudo funciona como um indicador interessante: por vezes, uma molécula de açúcar muito pequena pode esconder mais potencial cosmético do que qualquer campanha publicitária conseguiria prometer. Se isto se traduzirá num tratamento realmente útil contra a queda de cabelo dependerá das próximas fases, muito mais exigentes, da investigação.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário